Desventuras de um técnico do Centro de Recursos para a Inclusão da ASSOL

É verdade, chegou à nossa IPSS a acreditação enquanto Centro de Recursos para a Inclusão (CRI), abandonando-se a “velhinha e boa Portaria nº 1102/97”, ao abrigo da qual nos era possível organizar o nosso trabalho, atempadamente, iniciando a prestação dos apoios logo no arranque de cada ano letivo.

É, agora, altura de fazer o balanço deste ano letivo, enquanto técnica do recém-nascido CRI, pena que não seja tão positivo quanto o habitual! De facto, este revelou-se o pior ano letivo de todos os tempos, graças à tardia distribuição horária dos recursos emanada pelo Ministério da Educação. Felizmente, a postura proativa da ASSOL permitiu-nos começar o trabalho nas escolas, apesar de, na altura,  ainda não haver diretrizes superiores. De facto, iniciámos o ano letivo sem saber se todos os elementos da equipa habitual teriam ou não um trabalho a desenvolver no apoio às crianças com NEE, conforme era prática corrente. As orientações vieram tarde e implicaram uma profunda reorganização da equipa, devido ao significativo corte de verbas sofrido. Terão as Crianças com NEE deixado de ter necessidades de apoio, sobretudo ao nível da transição para a vida pós-escolar, conforme se prevê na legislação vigente que, à partida, pretende promover a sua inclusão na comunidade, após o término da sua escolaridade?

Não será esta uma etapa de extrema importância na vida dos jovens apoiados?

Foi com grande esforço de gestão orçamental que a ASSOL não abdicou da manutenção do trabalho desenvolvido pelos monitores formadores, tão essencial nesta etapa de grandes decisões.

Infelizmente, as desventuras não terminaram aqui. Também os Agrupamentos, nossos parceiros, sofreram os efeitos das colocações tardias do corpo docente da educação especial e, pior que isso, mas em consequência da mesma, as crianças foram prejudicadas durante um longo período, na reorganização dos docentes e dos períodos de apoio efetivo prestado a cada aluno.

E, por último, não posso deixar de lamentar que seja possível conceber apoios técnicos de 20 a 30 minutos, de modo a cumprirem-se as metas estipuladas nos Planos de Ação, sob pena de as crianças com NEE não serem ainda mais penalizadas a nível de já tão parcos recursos. De uma forma honesta e consciente tenho a noção de que não é este o caminho a seguir, tendo em conta a nossa filosofia de atuação. Não é este o apoio que desejamos prestar às crianças para quem trabalhamos. Não é, seguramente, este o apoio que merecem! Não bastarão as desvantagens que as crianças com NEE de carácter permanente carregam consigo ao longo da vida? Terão, também, de ser penalizadas na quantidade e qualidade dos apoios que lhes devemos oferecer e a que, aliás, têm direito?

E se um destes meninos/ meninas fosse nosso filho, ficaríamos satisfeitos com o desinvestimento de que estas crianças estão a ser alvo?

Certamente que não!

Em suma, posso confessar-vos que foi um ano particularmente difícil, embora estas dificuldades tenham tido alguma repercussão na nossa capacidade de resiliência, na adaptação à mudança e na esperança de que tanta adversidade nos tenha ajudado a refletir sobre a forma como, no próximo ano, conseguiremos adotar melhores, mais eficazes e gratificantes formas de trabalho. Acredito que estaremos mais preparados para ajudar as nossas crianças a realizar sonhos e a crescer seguras e amadas e mais fortificadas na capacidade de autodeterminação.

É para isso que trabalharemos.

Susana Belém Ferreira

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